Dengue não é doença nova no Brasil. Em entrevista à Leda Nagle, lembrei: temos registros de epidemias desde o Império. Entender essa história ajuda a entender por que ainda lutamos com ela.
Uma cronologia
Século XIX: os primeiros relatos de uma "febre quebra-ossos" em portos brasileiros aparecem nos registros médicos imperiais. As epidemias estavam ligadas ao tráfego marítimo, à urbanização desordenada e à ausência de saneamento.
Início do século XX: Oswaldo Cruz lidera campanhas que praticamente erradicam o Aedes aegypti no Brasil. O sucesso é tão grande que, em 1955, a OMS declara o Brasil livre do vetor.
1976: o Aedes é reintroduzido. As campanhas haviam afrouxado. A urbanização disparou. O mosquito voltou para ficar.
1981: primeira grande epidemia moderna em Boa Vista (RR), com circulação do DENV-1 e DENV-4.
Anos 1990-2000: a doença se espalha por todo o território nacional. Surgimento da dengue grave (antiga "dengue hemorrágica") como problema rotineiro.
2010 em diante: os quatro sorotipos passam a circular alternadamente. Em 2024, o Brasil registrou ano recorde de casos e óbitos.
O que aprendemos
1. Sem controle do vetor, não há solução. Vacina ajuda; saneamento e remoção de criadouros são insubstituíveis.
2. Vigilância contínua é vital. Toda vez que afrouxamos, a doença reaparece com força.
3. Mudanças climáticas pioram tudo. Temperaturas mais altas e chuvas irregulares ampliam a janela de transmissão.
4. Urbanização sem planejamento cria milhões de criadouros artificiais por cidade.
Onde estamos hoje
A vacina Qdenga foi um avanço, mas tem limitações de público-alvo e cobertura. O ovitrampa, repelente, eliminação de criadouros e diagnóstico precoce continuam sendo as ferramentas centrais.
Por que isso importa
Quem entende a história entende que dengue não é um problema "deste verão". É um problema estrutural do Brasil há quase 200 anos, com momentos de controle e de descontrole. A diferença entre uma temporada calma e uma trágica costuma estar em decisões tomadas antes do verão começar — em fevereiro, março, abril, maio. Em maio, é a hora.
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