A coqueluche é uma das doenças mais antigas e mais previníveis. Em 2026, no entanto, casos triplicaram em vários estados brasileiros. Quem paga o preço? Bebês. Texto da Dra. Ana Beatriz Sodré, pediatra convidada.
O que está acontecendo
Em 2024-2025, a notificação de coqueluche cresceu de forma alarmante no Brasil e em vários países. As causas:
- Cobertura vacinal abaixo do ideal (DTP/DTPa) em crianças e adolescentes
- Imunidade da vacina cai ao longo dos anos: adultos não vacinados em reforço perdem proteção e contaminam bebês
- Atraso ou ausência da vacinação na gestante
- Dificuldade de diagnóstico em adultos (tosse seca persistente é frequente, mas não tratada como coqueluche)
Quem corre mais risco
Bebês com menos de 6 meses, especialmente menores de 3 meses, ainda sem esquema vacinal completo. Para eles, coqueluche pode ser fatal — pneumonia, apneia, convulsão, óbito.
Sintomas
Começa como um resfriado comum por 1-2 semanas. Depois evolui para tosse seca em acessos prolongados, seguidos de um som inspiratório agudo (o "guincho"). Em bebês, pode aparecer apneia (pausa respiratória) sem tosse típica. Em adultos, costuma se manifestar como tosse seca persistente por mais de 3-4 semanas, frequentemente confundida com "tosse alérgica".
A vacina dTpa na gestante salva vidas
Esse é o ponto-chave. Toda gestante deve receber dTpa a cada gestação, idealmente entre 20 e 36 semanas. Por quê?
- Os anticorpos atravessam a placenta e protegem o bebê nos primeiros meses
- A mãe não transmite coqueluche ao bebê
É vacina gratuita no SUS, segura, e reduz em mais de 90% o risco de coqueluche grave no primeiro semestre de vida.
Bloqueio familiar
Adultos que convivem com o bebê (pai, avós, babá) também devem estar com dTpa em dia (reforço a cada 10 anos). É o conceito de "casulo" — vacinar quem cerca o bebê para protegê-lo até que ele próprio receba a vacina.
Esquema infantil
DTP/Pentavalente aos 2, 4 e 6 meses; reforços aos 15 meses e 4 anos; dTpa aos 11 anos. Atualizado: o adolescente que perdeu o reforço deve tomá-lo. Adultos que nunca tomaram: 3 doses, sendo uma dTpa.
Tratamento
Antibiótico (azitromicina ou claritromicina) é mais eficaz se iniciado nas primeiras 2 semanas. Reduz transmissibilidade, mas não muda muito o curso da doença depois que a tosse paroxística instalou. Por isso a prevenção é tudo.
O que pais devem fazer
- Manter o calendário do bebê em dia, sem atrasar
- Se gestante, vacinar dTpa a cada gestação
- Familiares próximos: verificar último reforço, atualizar se necessário
- Adultos com tosse seca por mais de 2-3 semanas: considerar coqueluche, especialmente se convive com bebês
O recado
Coqueluche não é doença "do passado". Voltou. E mata bebê. Vacinar é o ato de amor mais barato e mais eficaz que existe.